O exílio do Presidente

Diz Norberto Lopes que o embarque teve lugar na manhã do dia 17 de Dezembro de 1925. Teixeira Gomes, que recebera um ramo de rosas e violetas das mãos da filha de um amigo, desceu a escada de madeira para embarcar num gasolina com destino ao navio «Zeus», ancorado no Tejo. Na fotografia do livro a que nos referimos – O Exilado de Bougie – distinguem-se, segundo a legenda, diversas personalidades da vida pública desses tempos. Gente da política, à qual Teixeira Gomes renunciava definitivamente. O autor acrescenta que naquele momento todos se descobriram e que o antigo ministro em Londres saudou igualmente os que ali se foram despedir. Mas não voltou. Esta edição de 1942 ocorre um ano após a morte de uma personalidade impar na História recente do nosso país, Presidente da República, escritor e diplomata.

Teixeira Gomes viveu uma juventude despreocupada, onde a boémia coimbrã lhe proporcionou, mesmo assim, o contacto com algumas das figuras mais destacadas do meio literário da época, ou activistas políticos como Brito Camacho. E terá sido este último quem sugeriu o nome deste algarvio, natural de Portimão, para o exigente cargo de chefe da Legação portuguesa em Londres, após o 5 de Outubro de 1910, lugar até então ocupado pelo marquês de Soveral, que muito depois desta data, continuaria a ser recebido no Foreign Office, bem como, naturalmente, D. Manuel II, o deposto rei. Na entrevista concedida a Norberto Lopes no Hotel de l’ Étoile, em Bougie, na Argélia, o autor de Agosto Azul menciona as dificuldades que enfrentou para se afirmar na capital britânica e recorda que apenas em Outubro de 1911, um ano após a proclamação da República, entregou credenciais ao rei Jorge V. No decorrer da conversa que deu corpo à referida publicação o antigo diplomata salienta a sua persistência para impedir a aplicação do tratado anglo-alemão de 1898 que previa a partilha dos territórios ultramarinos entre as duas potências europeias – o qual não chegaria a ser aplicado devido à eclosão da Grande Guerra – bem como a preocupação em atenuar a campanha anti-esclavagista desencadeada na Inglaterra contra o nosso país. Impossibilitado de continuar a exercer o seu mandato devido à instabilidade política que se agravara no último período do regime parlamentar, magoado com as calúnias divulgadas contra ele nos cafés de Lisboa, renuncia dois anos após ter sido eleito contra o seu maior adversário, Bernardino Machado, o qual, curiosamente, o iria substituir. Mas não deixa de sublinhar: «o encanto do mar, só por si, é cada vez mais intenso (…) Isso contribui imenso para que eu me vá deixando ficar em Bougie, espécie de Sintra à beira de água».

Mário Machado Fraião                         

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~ por MGMV em Novembro 22, 2007.

2 Respostas to “O exílio do Presidente”

  1. Dá-me vontade de ir já exilar-me para Bougie! Vale a pena, de resto, aprender este esteticismo sensualista. Uns finórios, estes escritores-políticos. Vale a pena ler Teixeira-Gomes, com hífen e tudo. Este texto abre o apetite.

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