Manuel Teixeira Gomes e o reconhecimento inglês da nóvel República

No dia 7 de Abril de 1911 chegava a Londres o novo representante diplomático da jovem república portuguesa, Manuel Teixeira Gomes. A 10 de Abril, o Daily Express comparava o antigo embaixador, o Marquês de Soveral, ao seu sucessor publicando a seguinte opinião: “The ex-minister is a man of great social attainments, a friend of kings, and a trained diplomat. The new minister has never previously held a diplomatic post, but he as won fame as art critic, novelist, dramatist and explorer”. Nos círculos políticos ingleses, a expectativa era grande. Também os desafios o eram para Teixeira Gomes. A desconfiança das instituições governamentais inglesas relativamente ao novo regime político português era uma realidade visível desde os primeiros meses de 1911, para o que muito contribuiu a imprensa inglesa ao ampliar e distorcer algumas delicadas questões de natureza interna, como as perseguições a jesuítas, os ataques a jornais monárquicos ou a desorganização económica que se foi intensificando com o avolumar das greves.

Apesar do ambiente tenso, a recepção a Teixeira Gomes no Ministério dos Negócios Estrangeiros ingleses (Foreign Office) foi considerada amistosa pelo próprio (“entrei em Londres com o pé direito”, confidenciava este a João Chagas, em carta enviada alguns meses depois). Teixeira Gomes procurou criar um clima de confiança e abertura logo de início, condição essencial para que a Inglaterra reconhecesse oficialmente o regime republicano português; em entrevista ao Evening Standard, ainda a 10 de Abril, afirmava o seguinte: “I heartly salute the great English people […] and in the name of Portugal I desire to say that our people ardently desire to conserve unimpaired all the traditions of that alliance between the two nations wich as been in existence for centuries”.

Durante as primeiras semanas de trabalho na capital inglesa, Teixeira Gomes mostrava-se optimista quanto à receptividade por parte do governo inglês face às novas instituições políticas portuguesas (“a opinião aqui à força de ler declarações peremptórias e optimistas, já começa a tomar-nos a sério”, escrevia o diplomata a Chagas a 5 de Maio). No entanto, os problemas e as dificuldades não tardaram em surgir. A influência de Soveral e a presença de D. Manuel II na corte inglesa, bem como a acção de muitos realistas emigrados foram obstáculos ao desempenho diplomático de Teixeira Gomes. A situação política em Portugal também não favorecia as pretensões do representante português em Londres; questões como o alegado mau tratamento dado aos presos políticos em consequência das primeiras incursões monárquicas em território português ou a Lei da Separação da Igreja do Estado e o espírito manifestamente anti-clerical do Governo provisório eram fogos que Teixeira Gomes procurava diplomaticamente apagar. Por outro lado, os atritos pessoais com Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, dificultavam uma boa coordenação de esforços no sentido de se criar uma política diplomática homogénea (Bernardino Machado era contra a nomeação de Teixeira Gomes para o cargo de Embaixador em Londres). A situação entrou num impasse, quando o Parlamento Inglês encerrou as suas actividades em Agosto. A diplomacia entrava de férias.

Entretanto, Teixeira Gomes insistia perante a opinião pública inglesa que a ordem pública em Portugal estava a ser assegurada pelas autoridades. O Times, habitual acérrimo crítico do regime republicano português, começava a moderar as suas opiniões. A própria escolha de Manuel de Arriaga para a presidência da República portuguesa parece ter tido aceitação consensual nos meios jornalísticos ingleses. Apesar de tudo, no início de Setembro, Teixeira Gomes mostrava-se impaciente, frequentando com mais assiduidade o Foreign Office, mas sem grandes resultados práticos; o governo inglês não parecia estar a empenhar-se muito na questão do reconhecimento da República Portuguesa; como desabafava o diplomata ao já citado Chagas, em carta enviada a 7 de Setembro, era “a habitual ronceirice inglesa no despacho de tudo quanto não interessa particularmente a Inglaterra”.  

Finalmente, entre 9 e 13 de Setembro, as grandes potências europeias reconheciam o novo regime republicano, tendo a Inglaterra um papel de destaque, nomeadamente ao ter conseguido convencer a desconfiada Espanha. A 11 de Outubro, Teixeira Gomes entregava as credenciais ao rei Jorge V. O aprofundar de relações com o ministro dos Negócios Estrangeiros Edward Grey e com o subsecretário Eyre Crowe – “verdadeiro irmão”, nas palavras do diplomata português – foi um factor importante na iniciativa inglesa em reconhecer oficialmente a República Portuguesa. Aliás, em carta enviada a 15 de Setembro a Teixeira Gomes, Edward Grey elogiava o papel diplomático daquele na manutenção das boas relações entre os dois países (“your own personal influence will always contribut to this subject”, escrevia o chefe do Foreign Office). 

 Paulo Girão

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~ por MGMV em Dezembro 5, 2007.

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