Manuel Teixeira Gomes e as sufragistas

•Novembro 14, 2015 • Deixe um Comentário

Manuel Teixeira Gomes era embaixador em Londres quando as  Suffragettes  radicalizaram a sua luta. Em 1903 Emmeline Pankhurst fundou a Women’s Social and Political Union (WSPU) cujo lema era “Deeds not words”. Em 1913 ele estava em Londres quando Emily Davison se lançou para a pista de Epsom para entregar ao rei Jorge V um lenço com a frase “Vote for women”.

Suffragettes.1913

Defensor do direito ao voto para as mulheres, não só conviveu com a mais famosa sufragista britânica, como publicamente defendeu a sua causa, como prova o seu testemunho na obra Carnaval Literário, escrita em Bougie, em 1935:

Quando tomei conta da Legação de Londres, há 24 anos, as sufragistas estavam em plena actividade e cometiam diariamente atentados de toda a sorte. O membro do governo que elas mais odiavam era Sir E. Grey, ministro dos Negócios Estrangeiros e viúvo de uma sufragista militante, à hora da morte da qual _ afirmava-se _ ele prometera trabalhar sem descanso pela “santa causa”. E como o Ministério continuasse negando-lhes o direito de voto, as sufragistas haviam intimidado Sir Ed. Grey a que se demitisse sob pena de o matarem. A ameaça, tomada a sério, provocou por parte da polícia severas medidas de precaução, das quais as mais visíveis (e grotescas) foram as paliçadas de grosseiros pranchões erguidas, nas extremidades da pequena rua quedava entrada para o “Foreign Office”. Só era permitida a passagem por duas portinholas abertas nas estacadas, e a que, dia e noite, dois polícias colossais (como duas torres) faziam sentinela.

Por acaso, em uma das minhas anteriores visitas a Londres, eu travara relações com uma sufragista de alto coturno, à qual manifestara toda a minha simpatia pela “causa”, e, por acaso também, foi ela uma das primeiras pessoas que encontrei quando entrei em funções. Reafirmei-lhe os meus sentimentos, e isso (à parte algum exagero) com sinceridade e convicção: a mulher inglesa, geralmente muito mais culta do que o homem, tinha boas razões para exigir o direito de voto.

Admirável foi o efeito que produziram as minhas declarações, comunicadas sem demora aos corpos dirigentes: veio logo uma delegação perguntar-me se a República portuguesa não estaria disposta a praticar a almejada reforma, e em cada sufragista surgiu uma defensora da nossa revolução, que bem precisava desses favores, pois a atmosfera de que fruía em Londres era péssima.  

Na verdade, a República Portuguesa não estava disposta a fazer tal reforma. Seria preciso esperar pela revolução dos cravos para que as mulheres portuguesas obtivessem plenamente o direito de cidadania.

Cronologia do movimento feminista em Portugal

liga-portuguesa-republicana

Liga Republicana das Mulheres Portuguesas

1897 – Federação Socialista do Sexo Feminino

1907 – Grupo Português de Estudos Feministas. Dirigido por Ana de Castro Ósório

1908 – Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Dirigido por Maria Veleda, Adelaide Cabete e Ana de Castro Osório

1911 – Associação de Propaganda Feminista, criada na sequência de divergências surgidas na Liga Republicana. Dirigida, entre outras, por Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo.924 – Realização do Congresso

1911 – Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher portuguesa a votar, usando a ambiguidade do artigo da constituição que atribuía o direito de voto aos cidadãos que soubessem ler e escrever e que fossem chefes de família

1913 – Adenda à Constituição excluindo as mulheres do direito de voto

1914 – Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, fundado por Adelaide Cabete.

1924 – Realização do Congresso Feminista da Educação, durante 5 dias, com participação de feministas estrangeiras.

1931 – Direito de voto às mulheres com estudos superiores ou curso secundário completo.

1974 – Direito de voto a toda as mulheres.

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MANUEL TEIXEIRA GOMES, OFÍCIO DE VIVER

•Novembro 6, 2010 • Deixe um Comentário

 O Projecto Agosto azul foi concluído com a edição do livro MANUEL TEIXEIRA GOMES, OFÍCIO DE VIVER, coordenado por Maria da Graça A. Mateus Ventura e editado pelas Edições Tinta da China em parceria com o ICIA, em Maio de 2010.

Sete autores, sete capítulos, três partes. Entre os autores, um professor argelino residente na cidade onde MTG viveu a última década da sua vida.

 O livro, com uma excelente encadernação francesa, é ilustrado com fotografias pessoais, gravuras  e postais ilustrados de muitas das terras por onde andou, bem como de hotéis onde permaneceu quando das suas viagens pelo Mediterrâneo.

O lançamento da obra teve lugar, em Portimão,  no passado dia 27 de Maio, na presença dos seus netos.

INDICE

Prefácio

Manuel da Luz

Introdução

Maria da Graça A. Mateus Ventura

Parte I – TUDO LARGUEI E FUI SERVIR A REPÚBLICA 

Cap. I – A acção diplomática em Londres e a afirmação da República no contexto da 1ª Grande Guerra. Paulo Girão

Cap. II – Uma presidência na agonia da República. Mário Machado Fraião

Parte II – A MIRAGEM DO ANONIMATO SORRIA-ME E ATRAÍA-ME

Cap. I – O Deslumbramento do Sul e o prazer da Viagem. Maria da Graça A. Mateus Ventura

Cap. II – Foi sempre aspiração minha visitar as terras da moirama: Uma perspectiva portuguesa da realidade magrebina. Jorge Afonso

Cap. III – Encontrei na África francesa mais desenvolvimento do que supunha: Aspectos da vida cultural na Argélia nos anos 30. Djamil Aïssani

Parte III – E AS EVOCAÇÕES DA SENSUALIDADE E DO AMOR?

Cap. I – Jogos de sedução. Ana Cristina Oliveira

Cap. II – Um retrato. José Pacheco

 Índice  onomástico

Os autores

A nova República Velha

•Março 4, 2008 • 2 comentários

A 14 de Dezembro de 1918 terminaria a experiência autoritária de Sidónio Pais, também conhecida por República Nova. Quando o país conhecia as piores consequências da Guerra, a inflação e o racionamento, o Presidente-rei procura integrar os monárquicos no regime, normaliza as relações com a Igreja, apoia os grandes produtores agrícolas, com o fim do «pão político», restabelece a ordem nas ruas fortalecido pelo apoio dos jovens oficiais. Mas o que movia o «sidonismo», para além de tudo isto, era o ódio aos democráticos, beneficiados pelo sistema eleitoral, vencedores de todas as eleições até ao momento, e muito especialmente o rancor endereçado a Afonso Costa, primeiro-ministro em 5 de Dezembro de 1917, altura do golpe dos cadetes da Escola de Guerra que dissolve o Congresso e destitui o Presidente da República.

Não deixa de ser curioso que o assassinato de Sidónio, na estação do Rossio, de onde iria partir para o Porto devido às movimentações de elementos realistas, tenha ocorrido poucos dias após o armistício. Apenas defendida de forma intransigente pelo Partido Democrático, não obstante a constituição da «União Sagrada», a Guerra tornara-se cada vez mais impopular. Originara as fortunas dos «novos-ricos», fizera proliferar novas empresas, mas trouxera dificuldades para muitos e o empobrecimento da maioria da população. Incapazes de entender os motivos da intervenção portuguesa no conflito internacional, angustiados com o futuro que lhes estaria reservado, os camponeses são facilmente atraídos para fenómenos religiosos como as «aparições» de Fátima. Testemunhando talvez este ciclo depressivo da nossa história recente, da qual os elementos marcantes eram a carestia e a insegurança, faleceram, nesse mês, os pintores Santa-Rita e Amadeu Sousa Cardoso. Entretanto, Aquilino publicara Terras do Demo.

 início de 1919 seria marcado pela guerra civil que termina com a entrada de forças favoráveis ao restabelecimento do sistema constitucional na cidade do Porto, pondo termo à denominada «Monarquia do Norte». Canto e Castro, um monárquico eleito presidente de acordo com a Constituição de 1911, empossou Tamagnini Barbosa, o qual formará um Governo constituído por um número considerável de antigos sidonistas. Só a 30 de Março, Domingos Pereira irá constituir um governo onde predominavam elementos do Partido Democrático. Tinha início a nova «República Velha».         

Não obstante, o Tratado de Versalhes seria assinado a 28 de Junho. A delegação portuguesa, chefiada por Afonso Costa, conseguiu que o Tratado contemplasse o pagamento de indemnizações devidas ao nosso país e confirmou o direito de Portugal sobre as colónias ultramarinas. António José de Almeida era eleito presidente da República no dia 6 de Agosto. Confirmando a influência da corrente revolucionária, a 13 de Setembro foi criada a Confederação Geral dos Trabalhadores, de inspiração anarco-sindicalista. E no dia 1 de Outubro é fundado o Partido Republicano Liberal, resultante da junção entre evolucionistas e unionistas. Neste mesmo ano, Raul Brandão publica o primeiro volume das Memórias.

No ano seguinte, 1920, tomaram posse sete governos enquanto a corrupção continuava e se verificavam assaltos a estabelecimentos comerciais de Lisboa e Porto, evidenciando a crise de autoridade, aumentando as preocupações da opinião pública e a insatisfação do exército. Todavia, o acontecimento mais grave deste período de grande instabilidade foi a dramática «noite sangrenta», de 19 de Outubro de 1921, durante a qual foram assassinados, em circunstâncias mal esclarecidas, o primeiro-ministro António Granjo, e outros dirigentes republicanos, entre os quais, Machado Santos e Carlos da Maia. A revista Seara Nova, fundada por destacadas personalidades do campo republicano, que iniciara neste mês Outubro a sua publicação, irá insurgir-se energicamente contra esta trágica ocorrência.

A 22 de Março de 1922 partia de Lisboa o avião Lusitânia, pilotado por Gago Coutinho e Sacadura Cabral, iniciando a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. António José de Almeida inicia a 17 de Setembro uma visita oficial ao Brasil onde decorriam as comemorações do 1.º centenário da independência. E enquanto o ministro da Instrução Pública do segundo ministério de António Maria da Silva via recusada no Parlamento a sua proposta de restabelecer o ensino religioso nos estabelecimentos particulares, António de Oliveira Salazar publica Lições de Finanças. No dia 6 de Agosto de 1923 – ano em que se verificou uma corrida aos depósitos e como inevitável consequência cinco bancos abriram falência – Manuel Teixeira Gomes é eleito presidente da República. Durante o seu mandato deu posse a sete ministérios, tendo conseguido conter uma séria tentativa de golpe militar, a 18 de Abril de 1925, até se demitir em 11 de Dezembro desse mesmo ano. Eleito no mesmo dia, Bernardino Machado seria o último presidente da I República portuguesa. José Régio publicava Poemas de Deus e do Diabo. Faltavam seis meses para o 28 de Maio.      

Mário Machado Fraião   

Manuel Teixeira Gomes e o reconhecimento inglês da nóvel República

•Dezembro 5, 2007 • Deixe um Comentário

No dia 7 de Abril de 1911 chegava a Londres o novo representante diplomático da jovem república portuguesa, Manuel Teixeira Gomes. A 10 de Abril, o Daily Express comparava o antigo embaixador, o Marquês de Soveral, ao seu sucessor publicando a seguinte opinião: “The ex-minister is a man of great social attainments, a friend of kings, and a trained diplomat. The new minister has never previously held a diplomatic post, but he as won fame as art critic, novelist, dramatist and explorer”. Nos círculos políticos ingleses, a expectativa era grande. Também os desafios o eram para Teixeira Gomes. A desconfiança das instituições governamentais inglesas relativamente ao novo regime político português era uma realidade visível desde os primeiros meses de 1911, para o que muito contribuiu a imprensa inglesa ao ampliar e distorcer algumas delicadas questões de natureza interna, como as perseguições a jesuítas, os ataques a jornais monárquicos ou a desorganização económica que se foi intensificando com o avolumar das greves.

Apesar do ambiente tenso, a recepção a Teixeira Gomes no Ministério dos Negócios Estrangeiros ingleses (Foreign Office) foi considerada amistosa pelo próprio (“entrei em Londres com o pé direito”, confidenciava este a João Chagas, em carta enviada alguns meses depois). Teixeira Gomes procurou criar um clima de confiança e abertura logo de início, condição essencial para que a Inglaterra reconhecesse oficialmente o regime republicano português; em entrevista ao Evening Standard, ainda a 10 de Abril, afirmava o seguinte: “I heartly salute the great English people […] and in the name of Portugal I desire to say that our people ardently desire to conserve unimpaired all the traditions of that alliance between the two nations wich as been in existence for centuries”.

Durante as primeiras semanas de trabalho na capital inglesa, Teixeira Gomes mostrava-se optimista quanto à receptividade por parte do governo inglês face às novas instituições políticas portuguesas (“a opinião aqui à força de ler declarações peremptórias e optimistas, já começa a tomar-nos a sério”, escrevia o diplomata a Chagas a 5 de Maio). No entanto, os problemas e as dificuldades não tardaram em surgir. A influência de Soveral e a presença de D. Manuel II na corte inglesa, bem como a acção de muitos realistas emigrados foram obstáculos ao desempenho diplomático de Teixeira Gomes. A situação política em Portugal também não favorecia as pretensões do representante português em Londres; questões como o alegado mau tratamento dado aos presos políticos em consequência das primeiras incursões monárquicas em território português ou a Lei da Separação da Igreja do Estado e o espírito manifestamente anti-clerical do Governo provisório eram fogos que Teixeira Gomes procurava diplomaticamente apagar. Por outro lado, os atritos pessoais com Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, dificultavam uma boa coordenação de esforços no sentido de se criar uma política diplomática homogénea (Bernardino Machado era contra a nomeação de Teixeira Gomes para o cargo de Embaixador em Londres). A situação entrou num impasse, quando o Parlamento Inglês encerrou as suas actividades em Agosto. A diplomacia entrava de férias.

Entretanto, Teixeira Gomes insistia perante a opinião pública inglesa que a ordem pública em Portugal estava a ser assegurada pelas autoridades. O Times, habitual acérrimo crítico do regime republicano português, começava a moderar as suas opiniões. A própria escolha de Manuel de Arriaga para a presidência da República portuguesa parece ter tido aceitação consensual nos meios jornalísticos ingleses. Apesar de tudo, no início de Setembro, Teixeira Gomes mostrava-se impaciente, frequentando com mais assiduidade o Foreign Office, mas sem grandes resultados práticos; o governo inglês não parecia estar a empenhar-se muito na questão do reconhecimento da República Portuguesa; como desabafava o diplomata ao já citado Chagas, em carta enviada a 7 de Setembro, era “a habitual ronceirice inglesa no despacho de tudo quanto não interessa particularmente a Inglaterra”.  

Finalmente, entre 9 e 13 de Setembro, as grandes potências europeias reconheciam o novo regime republicano, tendo a Inglaterra um papel de destaque, nomeadamente ao ter conseguido convencer a desconfiada Espanha. A 11 de Outubro, Teixeira Gomes entregava as credenciais ao rei Jorge V. O aprofundar de relações com o ministro dos Negócios Estrangeiros Edward Grey e com o subsecretário Eyre Crowe – “verdadeiro irmão”, nas palavras do diplomata português – foi um factor importante na iniciativa inglesa em reconhecer oficialmente a República Portuguesa. Aliás, em carta enviada a 15 de Setembro a Teixeira Gomes, Edward Grey elogiava o papel diplomático daquele na manutenção das boas relações entre os dois países (“your own personal influence will always contribut to this subject”, escrevia o chefe do Foreign Office). 

 Paulo Girão

A família de Manuel Teixeira Gomes I

•Novembro 25, 2007 • Deixe um Comentário

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Na madrugada do dia 27 de Maio de 1860, nasceu na antiga rua dos Quartéis, em Vila Nova de Portimão, o terceiro filho de José Libânio Gomes Xavier e Maria da Glória Teixeira. Ana e Maria da Glória eram de tenra idade, com cinco e dois anos, respectivamente. Mais tarde nasceria o irmão mais novo de Manuel Teixeira Gomes, José, aquele que lhe sucederia na gestão dos negócios familiares quando a representação de Portugal o levou à corte do rei Jorge V, em 1911. José Libânio Gomes, negociante abastado, nascera em plena monarquia constitucional, dez anos antes de o Remexido inquietar o Algarve com a sua guerrilha em prol da restauração do absolutismo. Republicano convicto, descende de homens do Norte (Mortágua, Viseu) e de mulheres de Portimão e de Alvor. Ao contrário, sua esposa, D. Maria da Glória Teixeira, descendia de famílias de Vila Nova e dos concelhos vizinhos (Silves, Lagoa e Monchique). Manuel Gomes Xavier de Ataíde, avô paterno de Manuel Teixeira Gomes, foi alferes da Legião Lusitana ainda antes da ordem de marcha do general Junot para combater na Europa. Decerto que a sua experiência militar nas campanhas napoleónicas lhe possibilitaram a abertura ideológica necessária à futura adesão aos ideais liberais vintistas. Com várias condecorações, era tenente de Infantaria em 1823, e comandante do destacamento de Portimão em 28 de Maio de 1828 quando foi preso por ordem de D. Miguel e encarcerado no Limoeiro onde veio a morrer. José Libânio Gomes tinha apenas nove anos de idade quando seu pai faleceu. Como ele, também rumaria a França, em 1845, não para a guerra, mas para aprender com um negociante de frutos secos, em Rouen, as artes do comércio. Em 1849 já iniciava em Portimão as bases do negócio que levaria seu filho Manuel a percorrer os mercados da Europa. A qualidade dos seus frutos secos valeu-lhe uma medalha na Exposição Internacional de Londres de 1851. Quatro anos depois é de novo premiado na Exposição Internacional de Paris, vindo a integrar a Comissão da secção Portuguesa à Exposição Universal de Anvers em 1894. Entretanto, já criara uma Parceria para a Exportação de Figos do Algarve com outros comerciantes locais. A sua dinâmica comercial facilitou as suas relações pessoais e políticas. A sua nomeação como cônsul da Bélgica em Portimão em 1861 é o prelúdio de uma longa era de actividade diplomática que confere a esta família de comerciantes um carisma social que se prolongou até aos nossos dias na pessoa do seu bisneto, o Dr. José Manuel Pearce de Azevedo, cônsul honorário Britânico no Algarve por mais de três décadas.

Protagonista maior da vida política portuguesa, Manuel Teixeira Gomes acrescentou à herança familiar a criação literária, traçada no prazer da viagem, no culto pela arte e na sedução do amor.

Maria da Graça A. Mateus Ventura

Foto: Pais de M. Teixeira Gomes

O exílio do Presidente

•Novembro 22, 2007 • 2 comentários

Diz Norberto Lopes que o embarque teve lugar na manhã do dia 17 de Dezembro de 1925. Teixeira Gomes, que recebera um ramo de rosas e violetas das mãos da filha de um amigo, desceu a escada de madeira para embarcar num gasolina com destino ao navio «Zeus», ancorado no Tejo. Na fotografia do livro a que nos referimos – O Exilado de Bougie – distinguem-se, segundo a legenda, diversas personalidades da vida pública desses tempos. Gente da política, à qual Teixeira Gomes renunciava definitivamente. O autor acrescenta que naquele momento todos se descobriram e que o antigo ministro em Londres saudou igualmente os que ali se foram despedir. Mas não voltou. Esta edição de 1942 ocorre um ano após a morte de uma personalidade impar na História recente do nosso país, Presidente da República, escritor e diplomata.

Teixeira Gomes viveu uma juventude despreocupada, onde a boémia coimbrã lhe proporcionou, mesmo assim, o contacto com algumas das figuras mais destacadas do meio literário da época, ou activistas políticos como Brito Camacho. E terá sido este último quem sugeriu o nome deste algarvio, natural de Portimão, para o exigente cargo de chefe da Legação portuguesa em Londres, após o 5 de Outubro de 1910, lugar até então ocupado pelo marquês de Soveral, que muito depois desta data, continuaria a ser recebido no Foreign Office, bem como, naturalmente, D. Manuel II, o deposto rei. Na entrevista concedida a Norberto Lopes no Hotel de l’ Étoile, em Bougie, na Argélia, o autor de Agosto Azul menciona as dificuldades que enfrentou para se afirmar na capital britânica e recorda que apenas em Outubro de 1911, um ano após a proclamação da República, entregou credenciais ao rei Jorge V. No decorrer da conversa que deu corpo à referida publicação o antigo diplomata salienta a sua persistência para impedir a aplicação do tratado anglo-alemão de 1898 que previa a partilha dos territórios ultramarinos entre as duas potências europeias – o qual não chegaria a ser aplicado devido à eclosão da Grande Guerra – bem como a preocupação em atenuar a campanha anti-esclavagista desencadeada na Inglaterra contra o nosso país. Impossibilitado de continuar a exercer o seu mandato devido à instabilidade política que se agravara no último período do regime parlamentar, magoado com as calúnias divulgadas contra ele nos cafés de Lisboa, renuncia dois anos após ter sido eleito contra o seu maior adversário, Bernardino Machado, o qual, curiosamente, o iria substituir. Mas não deixa de sublinhar: «o encanto do mar, só por si, é cada vez mais intenso (…) Isso contribui imenso para que eu me vá deixando ficar em Bougie, espécie de Sintra à beira de água».

Mário Machado Fraião                         

Tropismos mediterrânicos

•Junho 14, 2007 • 1 Comentário

Manuel Teixeira gomes era uma viajeiro nato. Abandonados os estudos, embora seduzido pela boémia, optou por conciliar a independência económica com o prazer da viagem:

«Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos (1890-1910) viajei, passando em portugal poucos meses. Montei a vida de forma que na região compreendida pelo norte da França, a Bélgica e a Holanda, onde vendia os produtos do Algarve, levava quatro ou cinco meses; ia a casa liquidar contas, e depois nos cinco ou seis meses restantes, livre e despreocupado, metia-me no Mediterrâneo, cujas costas visitei por assim dizer, passo a passo.»

Regressos. Lisboa: Seara Nova, 1935